Uma das perguntas que o século XXI deve responder é o que acontece quando derrubamos todas as barreiras de comunicação da espécie mais social que já andou na Terra.
Antes da internet, a única forma de falar remotamente em tempo real com alguém era o telefone. A interação era pontual. Começo, meio e fim, geralmente em alguns minutos e com finalidade clara. Existia inclusive uma etiqueta de momentos em que era adequado ligar para alguém ou não; o telefonema carregava todo um protocolo que nossos pais nos ensinavam desde pequenos. Lembro claramente da minha mãe falando “não vai ligar agora para fulano, está muito tarde”. Havia limites. O consumo de mídia não era muito diferente. O jornal tinha hora pra ser visto ou lido. Assim como o filme que alugávamos na locadora ou esperávamos para ver na TV. Tudo dentro da sua caixinha, um mundo onde tudo era meio CLT.
Desde o surgimento da web, é como se estivéssemos derrubando todos esses limites. Agora, estamos sempre conectados com tudo: amigos, namorada, trabalho, notícias, tudo em todo o lugar ao mesmo tempo. Esse processo começou devagar, com a linha discada, apenas alguns minutos por dia e horas no final de semana. Com a chegada da banda larga, o limite passou a estar no acesso ao computador. A internet morava em casa, mais especificamente no quarto para millennials como eu. Com smartphone e 5G, momento em que vivemos agora, é praticamente impossível imaginar um dia em que não tenhamos mensagem no WhatsApp. Quando isso aconteceu? Quando normalizamos este acesso ininterrupto aos nossos eus?
Eu, que costumava voltar da escola e passar até o dia seguinte sozinho (e feliz) com meus livros, filmes e videogames, agora sinto que há algo errado quando pego o celular depois de algumas horas e vejo que ninguém falou comigo.
A tendência, com tecnologias como a Neuralink, que promete nos manter conectados o tempo todo através de um chip, é que a própria ideia de individualidade precisará ser ressignificada. O que é ser um indivíduo quando não existimos individualmente? Quando não sabemos ficar apenas conosco, com nossas ideias, nossos pensamentos? Nem a República de Platão apresentava tamanha tirania. Quando reflito sobre essas coisas, me bate uma vontade maior de isolamento, de compartimentalizar as minhas interações online, de me rebelar contra essa invasão do espaço privado.
Quero restabelecer os limites que foram removidos.
Trazer de volta a etiqueta do telefone, que ninguém vai falar comigo depois das 20h em dia de semana porque é falta de educação. Que notícia se consome apenas alguns minutos por dia e fim. Que “assistir alguma coisa“ não inclui fotos e vídeos de poucos segundos de gente que eu mal conheço ou que não tem nenhum talento artístico. Quero trocar essa conexão interminável de má qualidade por diálogos pontuais, mas de valor.
Sei que soa ludista, mas precisamos restabelecer os limites da individualidade e voltar a ter a felicidade para além do olhar do outro. De todas as consequências do avanço da comunicação, essa perda gradual da capacidade de existirmos individualmente deve ser grande fonte de sofrimento para as gerações vindouras.



