Ontem, no centro budista, ouvi a ideia de que “morremos muitas vezes na mesma vida”, ou melhor, que nossa vida tem muitos momentos de morte. O que chamamos de morte é apenas a última; antes dela, há muitas outras.
A vida que eu tinha na infância com meus Cavaleiros do Zodíaco, bolas de gude e Super Nintendo só existe nos álbuns fotográficos da minha mãe. Da adolescência de ICQ, MSN, mIRC e uma quantidade inaceitável de Quake e Dota não sobrou quase nada, nem as amizades virtuais das madrugadas e nem eu mesmo, que tenho dificuldade em me reconhecer nesta vida. Essas foram mortes lentas, finais que vão se concretizando quase organicamente através de várias pequenas mudanças, frutos do amadurecimento: quando me dei conta, já era uma nova pessoa com uma nova rotina, amigos e relacionamento. Outras, como o término abrupto do meu noivado, ceifaram presente e futuro em uma única noite, me forçando a mudar quase tudo de uma vez.

O denominador comum de todas estas mortes é que eu continuei. No budismo tibetano, existe o conceito de bardo, que é algo como o estado intermediário entre uma existência e outra. Khenpo Palden Sherab Rinpoche afirmava que os bardos na verdade são estados internos da consciência, parte do contexto de existir e, mais importante, que quem os conhece não se abala quando as grandes transições da vida inevitavelmente ocorrem. De modo mais profundo, a existência seria um grande bardo onde estamos sempre em um fluxo contínuo de nos tornarmos alguma coisa enquanto deixamos de ser outra ao mesmo tempo.
Mas se meu Eu Gamer já morreu, quem seguiu em frente para escrever este texto? O que persiste ao final de cada um destes ciclos? Minha primeira intuição foi a de quase todo mundo: alguma coisa em mim atravessou essas mortes intacta. Os espíritas e cristãos chamam isso de Alma; os hinduístas, de Atman. A ideia central destes conceitos é que existe um núcleo do nosso eu que persiste entre vidas ou, pelo menos, ao longo desta aqui. É o “quem realmente somos” da cultura popular. Os budistas, por outro lado, têm uma ideia radicalmente diferente: não há um “eu” que prossegue, nós somos este fluxo contínuo de mudanças que não para nunca.
Superficialmente, as duas interpretações não parecem tão diferentes. Afinal, uma delas diz que a vida é 90% mudança (um pequeno núcleo permanece) e a outra que é 100% mudança. Mas esse é um enquadramento equivocado. A analogia certa é a diferença entre sermos o navio no mar e sermos o próprio mar. No primeiro caso, a agitação do mar é algo a ser detestado, combatido, evitado. Lutamos contra um oceano que ora está a nosso favor, ora contra nós. O Fortuna, velut luna, statu variabilis. No segundo, não há navio algum. Ele é uma ilusão. O que somos é exatamente este balanço interminável das ondas, correntezas que vêm e vão, calmarias e agitações. O Eu que jogava Super Nintendo não está em lugar nenhum, e talvez nunca tenha estado. O tempo todo, só havia o mar.




Muito bom! 🤌
Excelente texto, Gerson :)